• Alana de Bairros

9 meses de formação: será que ele se parecerá comigo?

Eu ouvi “venham para a aula na semana que vem com definições para o tema do TCC” e senti um frio na espinha, como diz o ditado popular. 27 de fevereiro foi a primeira vez – de várias – que eu, chorona, confesso, me desesperei em razão do TCC, na segunda aula da disciplina. A ficha caía, aos poucos, de estar no último ano da graduação e enfrentar o mercado de trabalho. Ao mesmo tempo que eu lidava com questões de uma formanda e quase-adulta, precisava decidir sobre o assunto e as abordagens as quais me dedicaria a pesquisar de março até novembro, para depois de 9 meses de gestação – produção –, dar a luz à uma obra com a minha cara. Gostaram do trocadilho? Rs*.


Enquanto alguns colegas já tinham direcionamentos bem definidos, eu me sentia um peixe fora d’água sem ter ideia nenhuma de tema. A preferência por monografia à produto era a única coisa sobre a qual estava decidida, e já marcava os 45 do segundo tempo. Para te situar: sim, no curso de jornalismo os alunos escolhem produzir uma pesquisa teórico-conceitual ou um produto jornalístico aplicado.


Um rolê por muitas – muitas mesmo – abas de navegação pela internet e uma caneta que rabiscava ideias aleatórias em uma folha de papel foi o pontapé inicial. Cheguei na aula com os seguintes direcionamentos anotados: Bolsonaro. Ataques à imprensa. Ataques a jornalistas mulheres. Comparativo dos últimos 5 anos. Análise de discurso. Análise de comentários. Por fim, eu não fiz nenhuma dessas análises, nem comparativo, nem foquei em jornalistas mulheres, mas já visualizava uma direção.


Em março eu já tinha um tema pré-definido e uma orientadora, um grande avanço – e alívio. Mas a trajetória do TCC estava apenas no início, ele só tinha o tamanho de um grão de arroz, como um bebê no primeiro mês de formação. Depois das primeiras orientações, que serviram para decidir – finalmente – o tema, objeto de estudo e objetivos, dei início ao pré-projeto, que me tirou o sono quando eu ainda não fazia ideia de quanto sono perderia pela frente. Alerta: esse texto contém relatos que podem fazer você desanimar-se com o TCC, mas calma. Só piora. Rs. Zoeira. A luz no fim do túnel vem aí – eu também ainda estou procurando ela.


Definido que eu iria realizar uma análise de conteúdo sobre os ataques de Jair Bolsonaro à imprensa em lives no cercadinho, publicadas no Facebook do presidente no primeiro mês da pandemia de Covid-19, construí o pré-projeto baseada em muitas notícias, pesquisas e leituras. Nesse estágio, o TCC já tinha o tamanho de uma uva. Foi aqui também que eu adotei uma ferramenta essencial para a organização, que com o tempo ganhou valor sentimental: o caderninho do TCC. Para quê? Anotar e ter controle sobre tudo que se referia à pesquisa. Além de ideias, orientações e prazos, passei a escrever também sentimentos e desabafos sobre o processo. Pretendo guardar como a “prova do crime”. Rs.


As férias de julho chegaram para a maioria dos estudantes, e eu estava fazendo o primeiro capítulo do referencial teórico. Ah, vai, deixa eu dramatizar um pouco. Rs. Nessa etapa eu já estava conhecendo melhor meu processo produtivo: precisava de um lugar organizado e calmo para produzir, rendia mais com livros físicos do que digitais e meu cérebro só dava start para isso depois das 23h. E aí, “a noite era uma criança”.


Quando o segundo semestre se iniciou bateu a sensação de “eita, agora a coisa ficou séria”. Em agosto eu dei forma à etapa mais exaustiva, conforme minhas experiências: o referencial teórico. Foi necessário muita leitura e releitura para discorrer sobre os temas e escrever história, conceitos e fundamentos. Cerca de 15% da biblioteca da universidade estava na minha mesa – contém ironia. Quando eu tinha a impressão de que estava mais perto do fim, parecia que o caminho triplicava. Depois de muito escrever – e reclamar –, chegaram as cerca-de-trinta páginas. Aí o TCC já tinha o tamanho de uma espiga de milho. Cresceu, né?


Depois disso, caiu a ficha sobre outro fator: meu objeto de estudo eram as lives no cercadinho, publicadas no Facebook do Bolsonaro. Para construir as análises, eu precisaria assistir todas as lives transmitidas em um mês. Um mês. Inteiro. Totalizaram 14 vídeos, que juntos, somavam três horas. Três-fucking-horas. Ouvindo Bolsonaro e simpatizantes atacarem e descredibilizarem a profissão que eu escolhi seguir. Apesar de revoltante em muitos momentos, confesso que essa etapa foi mais rápida e descomplicada.


Estudar sobre o método de análise. Ok. Assistir todas as lives. Ok. Assistir todas as lives de novo. Ok. Criar as categorias. Ok. Criar os quadros e agrupar os ataques. Ok. Nesse período, a formação do TCC entrou em fase final e ele já alcançava o tamanho de um abacaxi. A cada orientação quinzenal, as ideias ficavam mais claras, com direcionamentos bem definidos.


As considerações finais deram menos trabalho e depois disso, vieram os ajustes chatos: referências, paginação, revisão de ortografia e o pior de tudo: ABNT. Uma pedra no sapato do universitário que produz monografia. O alívio de ver forma no trabalho chegou duas semanas antes da entrega final, pois ali ele já estava do tamanho de uma abóbora, ou melhor, cerca-de-setenta páginas. Apesar de pequenas revisões constantes, dava para notar: ele tinha a minha cara.


Sobre o parto – a banca de apresentação –, eu volto para contar em algumas semanas, mas alerto: foi exaustivo, porém cada etapa me desenvolveu e me preparou para a próxima. O Trabalho de Conclusão de Curso marca o fim de uma trajetória acadêmica e merece que a gente se dedique ao máximo. É a nossa contribuição para a pesquisa científica. E ela pode ser enriquecedora quando, aliada a uma boa orientação, entendemos o ritmo da nossa produtividade e respeitamos nossos processos. Mas não esquece de cumprir os prazos, taókêi?!


*Rs: expressão usada para se referir a “risos”, para evitar o “hehe”, que pode parecer forçado, ou o “hahaha”, que muitas vezes é exagerado.


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