• Ana Laura Baldo

O TCC sou eu, e eu sou ele

É o grito que sempre quis dar, é a mensagem que sempre quis passar, é a luta que sempre vou lutar. Meu Trabalho de Conclusão de Curso foi uma desconstrução, construção e renovação. Posso dizer que entreguei minha alma neste trabalho, que ele me mudou como ser humano, mulher, jornalista e militante. Foram meses de pesquisa, angústias, choros, risos, acertos e erros, mas sempre, sempre acompanhada de vinho, o branco, meu predileto.


Apaixonada desde pequena pela audiovisual, não poderia fazer outra coisa de TCC, se não um filme, algo que almejei durante todo o curso. Mas o que eu não poderia imaginar é que me apaixonaria pelo gênero documentário e que com ele, poderia ajudar na transformação do mundo, na conscientização das pessoas sobre uma assunto sério, dolorido e importante.


Meu tema não é surpresa para nenhum de meus colegas, nem para meus amigos e mãe, ele grita meu nome, minha pessoa, meu ser. “Violência contra a mulher no período de pandemia”. É o trabalho mais complexo e intenso da minha vida, é o que me deixou sem dormir, às vezes sem conseguir respirar. É também o trabalho responsável por me fazer beber em uma noite mais vinho do que eu devia. É o meu cúmplice, meu filho/a, meu amor, minha dor.


Cada palavra escrita, cada cena gravada, cada noite mal dormida resultou em um filme lindo, intenso e corajoso. Eu tinha tudo para desistir, eu ia desistir. Quando a pandemia chegou, meu mundo acadêmico pirou, fiquei apreensiva, nervosa e com medo. Meus ataques de pânico se intensificaram, minha ansiedade aumentou, mas o carinho e aconchego da minha mãe e da minha orientadora fizeram toda a diferença. Ah, minha mãe. Ficou noites cozinhando e fazendo marmitas pra mim. Sempre que podia me mandava pelas caronas de Descanso a Chapecó, porque no meio de toda intensidade de um TCC, eu comecei a trabalhar com assessoria política e peguei uma campanha política de combo.


Talvez se eu não tivesse minha mãe comigo, eu não estaria escrevendo e lendo isso para vocês, porque eu teria desistido. Com certeza eu teria desistido. Minha mãe é a mulher mais incrível desse mundo, a base da minha vida. Te amo mãe! Mas não posso esquecer da minha orientadora, minha amiga, uma jornalista incrível que embarcou nessa junto comigo. A Angélica é um ser de luz, uma alma generosa, paciente e amorosa no mundo. Ela é um alguém que não existe igual. Hoje, o que mais me alegra é poder dizer que sou amiga dela, e que com certeza se um dia eu casar ela estará lá, festejando comigo.


A Angélica soube ser paciente, e me encheu de coragem para continuar. Quando eu liguei pra ela chorando, no início de agosto de 2020, dizendo que não ia conseguir, que iria trancar a matéria, ela simplesmente falou: “acalma teu coração, vai dar tudo certo, você vai ver”. Confesso que custei acreditar, mas ela estava certa, deu certo e deu muito certo.


Minha maior preocupação sempre foi as fontes vítimas de violência, como eu faria o contato, como eu mapearia elas. Tentei em todos os lugares possíveis em Chapecó, mas não consegui acesso a nenhuma vítima. Meu coração doía. Todos os dias eu lia , assistia e escuta notícias sobre violência contra a mulher, sobre feminicídio. A cada dia que passava os números aumentavam, e mais mortes de mulheres por questão gênero iam acontecendo. Aquilo partia meu coração, me destruía por dentro, e ainda destrói.


O processo para conseguir as fontes vítimas de violência foi difícil, mas no final deu certo. Conversei com duas sobreviventes e uma delas me escreveu uma carta, descrevendo tudo o que tinha vivido e passado nas mãos do seu agressor. O que mais me assustava e preocupava era que essa vítima ainda estava em situação de violência, e eu não sabia o que fazer. A distância entre nós era enorme, mas eu sabia que precisava fazer algo.


Movi céus e terras e consegui que essa mulher fosse atendida. Esses dias de contato diário me inspiraram para criar o roteiro do meu filme, depois da brilhante ideia da minha orientadora em escrever uma carta em resposta a ela, que no filme me refiro como Celeste. Eu queria escrever tudo o que passamos juntas, mas isso é algo que vou guardar pra mim, talvez um dia eu compartilhe com vocês.


Durante o processo de escrita da carta, chorei muito e também assisti muitas vezes o documentário que inspirou meu filme, o documentário Tão Longe é Aqui, da cineasta Eliza Capai. Posso dizer que esse filme me fez despertar para o cinema. Quando terminei a carta, segui para a gravação da fala, algo nada fácil. Gravei todo o áudio com um gravador e o documentário com um celular, na varanda do meu apartamento, na casa da minha mãe e na praia, lá em 2019, quando fui no Festival Lula Livre, sim, foi algo premeditado.


O meu filme é a prova de que se pode fazer documentário com baixo custo de investimento. Mas ele só foi desenvolvido porque eu tinha comigo uma amiga, parceira que editou o meu filme, a Luiza. Sem ela, eu não teria construído nada. Ficaria tudo gravado, mas nada montado, editado. A Luiza me ajudou a trazer vida, alma, e amor para o meu filme. Inclusive fica a dica, a Luiza é ÓTIMA em edição, uma mulher, jornalista incrível.


Eu tenho tanta coisa pra falar que poderia desenvolver um outro filme só para falar dos processos de produção do doc, ah, eu chamo o TCC assim, de doc. Como diria Letícia e Ícaro, minha gente, foi difícil em. Eu chorei tanto que nem sei, durante todo processo fui obrigada, pelas circunstância que vivia, a procurar ajuda psicológica, porque não conseguia mais lidar com os meus problemas e com o tema do meu filme sozinha.


A ansiedade é uma das piores coisas do mundo, ela te faz ficar sem ar, com o peito apertado e dolorido, às vezes tira os teus pensamentos do lugar, te faz pensar em coisas ruins e difíceis de falar, por isso procurar ajuda profissional é muito importante. É somente assim que você aprende a superar suas dores, a respeitar suas angústias.


Ta tudo bem se você quis assistir uma séria invés de escrever o artigo, tá tudo certo se você quis gritar alto FORA BOLSONARO no meio no processo de construção do seu trabalho, ele é um babaca que só faz mal a nós e a sociedade. Veja que aqui em nem me apeguei ao fato da gente ter vivido e estar vivendo uma pandemia, cujo vírus é capaz de matar em apenas um dia mais de 20 mil pessoas. Mas não me choca que o mundo só de importância real a uma pandemia que todos “enxergam”, enquanto nós vivemos uma outra pandemia de feminicídio, de violÊncia doméstica que está do nosso lado mas ninguém vê, ou não quer ver.


Meu TCC sou eu, e eu sou ele. Tudo o que sinto e penso está nele. Quero dizer pra vocês que produzir um filme em meio a uma pandemia não é fácil, mas não é impossível. Eu tenho muito orgulho do trabalho que eu, minha mãe, Angélica e Luiza criamos juntas. Sim, porque elas são minhas colaboradoras. O nome da minha mãe não aparece nos créditos do filme, e agora pensando foi um erro que cometi, porque deveria estar.


Mas por fim, quero dizer que todo o processo de produção foi incrível, e que me orgulho muito dele. Espero que em dezembro eu escute da Angélica o seguinte, “aprovada Ana, parabéns pelo trabalho, ta lindo!”^. Tenho a sorte de tê-la como orientadora, foi o destino que planejou tudo isso e ele estava certo da sua escolha.


A Angélica foi a pessoa certa, a melhor pessoa para esse trabalho. Aos meus colegas eu peço, escrevam, pesquisem, criem e compartilhem conteúdos sobre empoderamento feminino, sobre violência contra a mulher, sobre a comunidade LGBTQI+, sobre crianças, idosos e ocupem os espaços das escolas como meio de transformar o mundo. E agora sim, por fim agradeço minha mãe, a inspiração para tudo que faço. Te amo!


“SEJA A MUDANÇA QUE VOCÊ QUER VER NO MUNDO”

- Mahatma Gandhi


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