• Deise Agnoletto

Paixão e desespero: elementos da cultura de um TCC

A decisão sobre o tema do tão esperado e tão temido Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) não é algo muito fácil. Algumas pessoas possuem um turbilhão de ideias, outras têm assunto definido desde o início da graduação ou ao longo dela, mas também há aquelas pessoas como eu, que depois de já iniciada a disciplina, ainda não sabia sobre o que abordar. No entanto, nada adianta se desesperar com a situação. O momento pede tranquilidade e criatividade, para pensar em assuntos que interessem a sociedade, mas também quem está produzindo o trabalho, pois, só assim, o processo será mais agradável e resultará em uma boa pesquisa.

Foi na segunda aula sobre o TCC que cheguei à conclusão de ideias de pauta que gostaria de dissertar. A princípio eram duas: a cultura gaúcha direcionada ao lado campeiro, com intuito de fazer o conteúdo em forma de reportagem multimídia; e uma monografia, com tema voltado à produção impressa, com foco em pesquisar a assinatura de jornais em escolas. Entretanto, o segundo assunto era algo que eu não tinha uma ligação e não tinha perspectivas sobre ele, não sabia exatamente o objetivo central e como iria desenvolvê-lo. Por isso, como uma boa gaúcha e com contato, desde sempre, com a cultura e rodeios, preferi ficar com a primeira opção e diminuir sua ampliação.

Voltado a um esporte recorrente de rodeios, o tiro de laço, o projeto propôs buscar personagens femininas na prática do laço comprido e trabalhar a inserção de quem era pouco vista até alguns anos atrás na competição. Além de trazer as dificuldades que por elas foram encontradas no ambiente ainda masculinizado, também teve-se como intuito explicar o contexto de início da atividade e cada esporte campeiro reconhecido pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG).

Todos os objetivos foram alcançados, mas isso só foi possível pela colaboração das oito personagens entrevistadas e também, pela contribuição das fontes especializadas, que no total são três participantes. Já que falei em fontes especializadas, fica aqui uma indicação de muito atento neste momento - nunca coloque a sua atenção por completo nas personagens principais, elas são muito importantes, porém, sempre é preciso ouvir quem pesquisa o assunto e está por dentro de cada detalhe - esse foi um dos problemas, felizmente o único e capaz de solucionar, que aconteceu ao longo da produção.

Mantive o foco nas meninas, pensei em fontes pesquisadoras, mas acabei esquecendo de ouvir um representante do MTG, entidade responsável pela regulamentação do esporte e sabe melhor que ninguém de toda a sua trajetória. Contudo, - ia dizer que, sem surtos, o problema foi resolvido, porém, teve um leve estresse resultante desse esquecimento - mas, o contratempo foi solucionado. Foi contatado o vice-presidente da Diretoria Campeira do MTG/RS, e mesmo que já terminado há algum tempo todas as outras 10 entrevistas (com as irmãs Amanda e Fernanda Vaz, Amanda Rossa, Andreza Farrapo, Ediane Michels, Laura Fortuna, Mariana Cioccari e Michely Romais; e os pesquisadores Arlene Renk e Guilherme Howes Neto) e iniciado o texto da reportagem, foi feita a entrevista com o representante e encaixada na estruturação.

Ah, teve um outro pequeno perrengue envolvido na construção desse querido trabalho, que é o maior responsável pela loucura acadêmica e sessões de terapia - que eu não fiz, mas precisaria muito, porém o caos é que universitário é pobre e se lasca de todo lado. Então, já anexado na mente de orientanda e orientadora que seria enriquecedor para a reportagem se houvesse ilustrações dos cinco esportes campeiros, começou-se a caça por designers. Mas vou contar pra vocês viu, foi difícil, pior que entender as primeiras aulas de Teorias da Comunicação. Por não ter sido algo pensado logo no início da produção, eu não tinha verba separada para isso - outra coisa importante para se ater - nada obstante, as primeiras buscas se direcionaram a profissionais com altos valores, impossibilitando a criação das mesmas. Porém, quando quase estava desistindo da procura, uma indicação deu luz às produções. Consegui as ilustrações pela metade do valor e acabei fechando a parceira - até que enfim!

Após toda essa etapa de mapeamento, muito estresse, conversas, muitos surtos, decupagem, muita improdutividade e, acho que vale mais uma vez, muitos surtos, comecei a produção do meu produto final. Redigir o texto da reportagem e pensar onde encaixar cada detalhe das entrevistas, que foram os pontos mais importantes que tive, meus neurônios já cheiravam a queimado. As diversas etapas passadas até então acabam consumindo a criatividade e entusiasmo para a produção final, mas é importante saber dar descanso à mente, respeitar prazos, mas também respeitar seus próprios limites, porque se assim não fizer, estará se auto boicotando, ficando na mesmice de sempre, sem sair do “chão”, sem produzir e obter ideias boas o suficiente para dar continuidade ao trabalho - experiência própria…


No entanto, precisamos arrancar força do além, literalmente, e seguir firme na jornada. Tendo a montagem do site pendente, num belo domingo ensolarado, à tarde resolvi sentar em uma cadeira em frente à uma mesa, com um delicioso tererê e focar no meu objetivo. Esse, não mais o objetivo do projeto do TCC, pois, o envolvimento já era tanto, que passou a ser pela empatia gerada com meninas que participaram, pela aprovação que quero adiante e pelo diploma, que queria deixar o mais incrível possível. Pela minha família e amigos que virão a ler, por professores que se dedicaram passando conhecimento durante os quatro anos de graduação, e muito, pelo meu reconhecimento acadêmico que pode vir a ser profissional. Enfim, são muitas as vontades que surgem nesse instante turbulento, mas elas vêm para ajudar, para te empurrar para frente - mesmo que esteja com a cabeça latejando e olhos cansados de tanto ficar em frente à uma tela.


Com vontades, incentivos, apoio, indicações, assim foi chegando ao final da etapa mais desafiadora da graduação. Quase com tudo finalizado, fico imensamente feliz por ter contado a história das oito meninas dedicadas e amantes da prática do laço, e mais feliz por elas demonstrarem o quanto tem conquistado o que almejam, o espaço que não só elas, mas outras mulheres passaram a ocupar dentro do esporte campeiro. Apesar de exporem dificuldades enfrentadas, elas mostram que agora o respeito tem sido praticado e a discriminação diminuido em passos gradativos. Além disso, deixam a coragem em não desistir e como a dedicação é importante em nossa vida, seja no tiro de laço, no TCC, ou qualquer outra atividade que desempenha, todas precisam de disposição, paciência e AMOR.

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