• Isabel Piccoli

TCC: uma relação de amor e ódio

Foram três anos de uma caminhada esperando o dia em que eu teria que definir o tema do meu trabalho de conclusão de curso. Durante esse percurso muitas ideias haviam passado pela minha cabeça, diversas temáticas e inúmeras formas de abordar, sempre imaginando aquilo que tinha despertado minha paixão durante o curso.


O momento chegou, em fevereiro deste ano, logo na primeira aula sobre TCC. Eu já pensava em tantas possibilidades, mas era difícil prever como eu iria colocar tudo que estava sonhando para esse trabalho, o último da graduação. Começou a sensação de frio na barriga, de incertezas e angústias sobre tudo que estava por vir durante o ano. Passei os primeiros dias sentada numa cadeira e com um papel na mão, em que rabisquei e rabisquei temas e mais temas, ideias e mais ideias, mas não saia nada. Até que eu entendi que precisava de ajuda de alguém que visualizasse de fora o que eu pretendia com meu TCC.


Tive o primeiro contato com a minha orientadora, sem compromisso algum, com o intuito de abrir minha mente para aquilo que eu já não sabia nem qual caminho seguir. No entanto, algo batia mais forte dentro de mim, falando que precisava tratar sobre algo que eu gostava e que buscasse responder algumas das minhas inquietações. E olha, sinceramente, depois dessa conversa e dos debates em sala de aula, meu coração foi se acalmando, e eu percebi que estava nos trilhos certos.


Parecia que não seria tão complicado assim, bastava apenas organização. Só que aí surgiu, no meio disso tudo, uma pandemia, que interferiu diretamente em tudo do meu TCC, acho que de todos os meus colegas também. Foi quando me vi numa bola de neve, sem saber o que fazer.


Eu tinha tido duas orientações e estava na fase em que precisava começar a produção. Sem poder ir para a Unochapecó, me via desesperada procurando material sobre a temática na internet. Precisava de livros, mas não tinha como pegar emprestado da biblioteca. Elaborei um pré-projeto que de início me frustrou muito.


Não tinha nada do que eu queria e do que eu esperava de mim mesma. Foi quando eu passei a entender que não existia um tempo certo, mas sim o meu tempo e que as coisas iriam fluir de acordo com as minhas condições de tempo e, também, psicológicas. Ah, e não foi fácil lidar com as minhas crises de ansiedade e de nervosismo. Minhas unhas lutaram!


Por isso, escrever e desenvolver um TCC é um processo lento, gradual e que precisamos entender as nossas emoções e respeitar as nossas fases. Às vezes, você vai procrastinar sim, você vai desanimar e nem sempre tudo vai ficar como você imagina, por isso, a autocobrança precisa ser menor. Todos somos capazes, mas manter a saúde mental é essencial.


Bom, o projeto já fluiu melhor, já havia conseguido pegar emprestado os livros da biblioteca. A minha escrita estava indo bem. Porém, eu sempre achava que faltava algo, que eu precisava me esforçar mais, que precisava me dedicar mais, parecia nunca ser suficiente. Achava que abrir mão de tudo iria resolver, mas não resolve. Não faça isso! Equilíbrio é fundamental.


Mesmo que pareça que tudo esteja dando errado, forçar a fazer algo contra a vontade é pior que relaxar e recomeçar em outro momento. Entender suas emoções, seus sentimentos, suas dúvidas e principalmente, dividir com alguém é fundamental.


O relacionamento que construí com minha orientadora foi essencial para que o processo fosse menos árduo. Quantas orientações que na verdade, foram quase uma sessão de terapia, cheia de desabafos, em que abri meu coração e fui sincera. Olha! Isso ajudou tanto para que eu me acalmasse, respirasse e percebesse que ia sim dar tempo.


E eu consegui, entreguei o meu projeto, do jeito que eu queria, estruturado, com um referencial teórico consistente. Dica boa é dica amiga, por isso, a dica da Isa é pesquisem, leiam e escrevam o máximo que puderem no referencial teórico na elaboração do projeto, ajuda muito ao final de tudo.


Como eu não fiz uma monografia e sim um produto experimental, sim, o curso de Jornalismo da Unochapecó permite isso. Depois de entregar o projeto, eu precisava deixar de lado a teoria e partir para a prática. Que momento lindo, meus amigos! O contato com as pessoas e com o lado humano é minha paixão e é o que me fez querer chegar até o fim.


Cada mulher com quem eu conversei, cada história que eu conhecia, cada sorriso, cada risada e cada dificuldade compartilhada, me deram a certeza que a Isabel de quatro anos atrás fez a melhor e a mais certeira escolha quando optou por Jornalismo.


Mas, nem tudo foram flores, óbvio. O que eu sofri para fazer as entrevistas e coletar um áudio em boa qualidade... Eu fiz duas vezes, DUAS vezes, nada mais, nada menos, que cinco entrevistas, que deram em média 40 minutos de áudios, TODOS transcritos aos mínimos detalhes. Ah, você tá se perguntando, por que eu doida fiz duas vezes a mesma entrevista, né!? Pois bem, na primeira tentativa por ligação, as gravações ficaram com uma qualidade muito ruim, eu até tentei lutar e aceitar que estava bom o áudio, mas não estava. Foi quando eu resolvi, refazer as entrevistas por áudio de WhatsApp. DEU CERTO! Eu superei essa fase, a mais dura de todas. Foi nesse momento que tudo que estava adiantado e bem encaminhado foi por água abaixo. Foi retrabalho. Foram noites de choro. Inúmeras crises de ansiedade. O meu estômago lutava para não atacar em todas os meus surtos de nervosismo.


Até o dia que eu consegui terminar de transcrever todos os áudios e elaborei os cinco roteiros. Neste dia eu me sentia realizada.! Eu tinha conseguido virar a chave. E eu tinha certeza que tudo daria certo e que eu, novamente, estava no caminho.


Por isso, outra dica da Isa: não desista! Vai valer a pena! Por mais clichê que seja, vai valer! Ou talvez não, vai que você descubra que não era esse caminho que queria seguir. Eu confesso que, em meio aos surtos, eu parei de me cobrar tanto, eu passei a relaxar nos fins de semana, dormi bastante. Ao mesmo tempo que passei muitas madrugadas em claro. Quando eu terminei os roteiros, ainda era preciso editar os episódios, finalizar tudo e construir o artigo científico. Round 123456 dos surtos e das crises de ansiedades.


Nesse meio tempo, uma orientação mudou tudo. Me lembro que foi uma hora, uma hora e meia, por chamada de vídeo com a Juli, que eu abri meu coração, desabei, desabafei e tive a certeza que escolhi o tema certo, a orientadora certa, o produto certo, tudo certo. Eu sabia que nada era por acaso nesse tão temido TCC, que eu acho que nem é tão temido assim. A gente que complica mesmo, se cobra demais e acha que temos que fazer o melhor trabalho do mundo, só que ele pode não ficar o melhor do mundo, e tá tudo bem!.


Quando o responsável pela edição dos meus episódios compartilhou o primeiro áudio completinho e perfeitinho, eu pensei “ah, eu sabia que o meu coração e minha essência estariam ali”. E foi o que aconteceu. Eu dei o melhor de mim. Eu terminei tudo no prazo, o artigo científico, os episódios... Tudo! No final, deu tudo certo!


E sabe, eu aprendi neste ano que quando a gente realmente quer algo, precisamos colocar toda a nossa intensidade naquilo, sem deixar de lado o que amamos também. Caminhar com tudo em harmonia é a melhor escolha.


Eu sei que você vai dizer que é fácil falar e que nem eu mesma consegui levar tudo em harmonia, afinal não sou nada paciente e um poço de perfeccionismo. Só que as vezes, não vale a pena sofrer tanto. Te garanto!


Em vários momentos se acalmar e ser menos ansiosa ia me levar ao mesmo lugar que a ansiedade e o nervosismo me levaram. Se conheça, se descubra e aproveita esse momento como único, para que você compreenda quem você é! Nada vai ser por acaso durante a sua caminhada, tudo tem uma explicação!

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